O tempo de um sussurro foi o tempo necessário para que um cristal rebentasse, pegasse fogo, tomasse forma. Naquele orgasmo interdito toda uma vida havia sido desenhada e a Grande Mão, que tudo arquitetava, pegou-a pelos cabelos e jogou-a portões afora, como essas crianças que são levadas à escola no primeiro dia e sentem que há uma epifania faminta por medo. Foi nesse tempo posterior ao cristal lapidado que a garganta ficou seca, o grito preso no estômago. Era o instante da vida que passeava e se sentia acuada pela luz, era o tempo que o relógio nunca marcou e as coisas se reconheceram finitas, e os homens emparedaram as cidades e as crianças não gritavam mais. Um tempo que havia fome, mas não poderiam ser canibais - foi nesse átimo que a refração primordial sofreu e, de repente, não mais que de repente, se encontraram ali.
Não nos encontramos, e era isso que queria dizer, mas me sufoco por qualquer fantasma infeliz que insiste em me julgar digno de sua assombração, mas não se perca, ainda que estejamos perdidos, é um jogo de sombras que nos separa. Repara: quando a luz aí reflete, se consome o meu não-estar. Acalma, que vem uma onda que tudo destrói e recobre cidades, mas acalma que a onda não é onda, é só algo que nos disseram que era onda, mas não é onda, é algo que nos disseram que era oceano, mas podemos chamar de abraço, ou outra palavra que dê a dimensão do que pode fazer o coração ficar um pouco mais quente e bater menos forte, você sabe como é? Aquele momento entre a alegria e a dor, mas não é bem um vazio, é um interregno onde tudo começou.
O tempo de panelas alinhadas no fogão traduz a suspensão exata em que as coisas começam a fazer sentido em seu propósito. Não há fogo, não há alquimia, fome não há mais. O silêncio do chiado das coisas do mundo respira e ensina que o trabalho encerrou por um dia e todos podem descansar para o próximo dia. Podem se deitar, encerrar o sorriso e esperar pela paz da Santa Luz. O último olhar antes de dormir é o tempo do entendimento, da quase-perfeição, é quase o tempo do fim - mas não ainda. É o tempo que prepara o momento das janelas serem abertas e das estrelas cumprirem o seu dever. É o tempo que sustenta o tempo do próprio Tempo.
Veja bem, você que agora senta à luz do computador e se desliga de seu próprio corpo: estou aqui, mas não permaneço, mas estou. A gente anda meio coxo, mas anda, só não se sustenta, Ouve bem o que falo, amor, porque falo com esforço e não sei se sou capaz de manter minha voz, que anda áspera. Há o momento em que nos cruzaremos na rua, vou te queimar com o cigarro, você vai me xingar, vou me desculpar e tudo terá passado. Continuaremos andando coxos e com muletas mais frágeis que nossas pernas. Ainda que não me escute, insisto em gritar, porque olho para você e você é você: a conclusão mais simples, o verso inacabado, a métrica irregular.
A Grande Mão pousa sobre os ombros e diz que devem caminhar. Caminham de diversas maneiras, nem sempre tem clareza sobre seus objetivos, mas caminham. Constroem e não acabam. A Grande Mão muitas vezes acena e sorri; outras, dá um soco tão pungente que deixa hematomas quase eternos. A Grande Mão não mexe em relógios porque sabe que seus ponteiros são falhos e os números, apesar de infinitos, são limitados. O tempo que leva para tecer equivale a tudo que não foi dito, a todos os corações que ressecaram, Escreve de um jeito que não são possíveis pontos finais. Seu tempo é o das unhas que arranham, dão prazer, rasgam a carne e deixam marcas, algumas cicatrizes.
Olha bem em meus olhos e me diz o que não vê. Todas as marcas que trago escondidas, todas elas me levam a você. Esse é o tempo da partida, de todos os abraços de uma despedida, o tempo da minha ânsia, do meu desejo transbordante e do meu amor. O tempo do nosso reencontro, do nosso laço, o tempo desse monstro, desse descompasso. Acalma teu coração ao lado do meu que tudo agora está feito, menos nós. Escuta tua respiração chamando meu nome, que meu corpo grita pelo seu. Escorre teus dedos pelo meu rosto, pela minha boca, e presta atenção nas palavras que digo e ninguém quer ouvir. Ouve teu coração que bate em tempo de flor.
O tempo em que o espírito de Deus boiava sobre as águas.
sábado, 7 de janeiro de 2017
sábado, 19 de novembro de 2016
As cidades perdidas
Eu andei pelas ruas tentando encontrar um leve cheiro de alfazema que disfarçasse o odor que me parecia tão desconfortável - era um odor que me queimava como um enxofre. Passo por árvores e até por uma rua que vendia flores, mas nada parecia capaz de florescer em mim um antigo jardim. Onde está o cheiro de alfazema? A que vende na farmácia parece ser incapaz, a que está no incenso é doce demais, nenhuma delas pode me trazer paz. Não há cheiro de alfazema nessa cidade.
Eu poderia fazer um defumador com essa alfazema e limpar essa cidade. Tirar toda negatividade, ser São Francisco e me erguer numa inocente espiritualidade. Mas os muros me impedem, as vitrines me enfraquecem e as paredes permanecem me aprisionando. Todo dilema de um homem pós-moderno é ser eterno em sua agonia. Não há alfazema nessa cidade, então procuro por sua companhia.
Ando por aquele beco de bares tão comum a nós e à memória de nossos risos. Quase vejo sua silhueta naquele vestido vermelho que contrastava tão bem com sua pele morena: você é mais que um quadro, é uma pintura. Eu lembro de cada detalhe: uma bolsa grande demais, seus olhos amendoados, o jeito despretensioso de fumar. Duas unhas amareladas pela nicotina, aquela tatuagem ridícula em seu ombro. Mas o que eu sempre amei foi o cheiro de flores que suas roupas tinham de manhã.
Não era um cheiro de alfazema, mas era um cheiro também suave. Era engraçado aquela suavidade estar na sua pele, logo você, que nunca foi suave. Claro que ela sumia depois com o cheiro dos cigarros e do suor, mas ver você de manhã sempre foi uma das minhas imagens preferidas.
Nunca essa cidade seria nossa, ainda que eu passasse mil defumadores de alfazema nela - eu, que durante um tempo tive fé suficiente para nós dois. Por isso a gente mergulhava em um sonho que tudo seria possível, porque éramos possíveis. A gente era o jardim que faltava a essa cidade. A gente era a obra árcade que deu certo.
"'Mas se der certo, não é a gente", você sempre repetiu. E esteve certa. Ainda está, talvez. Daí só consigo escrever essa elegia para duas pessoas que, vivas, se tornaram mecânicas. A cidade que vivemos está perdida. A cidade que criamos está bombardeada. A nossa risada agora é sofrida. As nossas palavras estão abafadas.
quinta-feira, 10 de março de 2016
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Um dia eu tentei
parar de escrever e tudo ao meu redor girava como se uma roda-gigante
tivesse tomado o mundo ao meu redor, que girava. Tonto. Eu fiquei.
Zonzo. Eu parei. Vomitei. Voltei. Escrevi.
Se pudesse matar
todos os meus fantasmas, seria considerado algo como um fantasmacida,
um necromante ao contrário, um exorcista de mim mesmo. E dizem que
há algo como um jorro, algo como um gozo, algo como um estupro que
sai agora de um lugar tão alheio a mim que penso ser eu mesmo e nada
faz mais sentido, e tudo faz sentido, e tudo faz. Olhar um jardim
florido, dançar embaixo de uma avelaneira, tomar chá de hibisco –
e o sol, o sol, o sol. Iluminava um ponto que queimava em mim e fazia
um barulho que parecia uma chaleira, que parecia uma panela, que
parecia de pressão, alguma coisa acontece no meu coração. Se eu
fosse mais claro, seria límpido, seria córrego, seria rio, seria
cachoeira. E eu poderia ouvir um rugir, um ronco, uma pedra, um
peixe, os jovens se banhando nas águas do Humaitá, mas eu poderia,
eu não posso. O sol que me iluminava também era eclipse, era
escurecimento, uma nuvem que tapava a peneira por onde escorriam
pequenos fluidos meus, pequenos fios meus, pedaços de minhas unhas,
de meus dedos, de meus cabelos, de minha pele, pedaços de um sujeito
envultado, de um sujeito em vulto. Um vulto. Passando. Se pudesse
matar todos os meus fantasmas, seria considerado algo como um
fantasmacida, um necromante ao contrário, um exorcista de mim mesmo.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
hoje acordei com cheiro de gozo:
sonhei que minha boca estava no seu pau
e transbordava.
hoje acordei furioso:
era um gosto forte
e amargava.
hoje acordei ansioso:
queria te engolir
e você me afastava.
eu gozava, você gozava,
eu amava, você negava.
uma coisa boa me fez seu pau:
tive voz pra dizer
que meu bem-querer
era o meu mal.
sonhei que minha boca estava no seu pau
e transbordava.
hoje acordei furioso:
era um gosto forte
e amargava.
hoje acordei ansioso:
queria te engolir
e você me afastava.
eu gozava, você gozava,
eu amava, você negava.
uma coisa boa me fez seu pau:
tive voz pra dizer
que meu bem-querer
era o meu mal.
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Um dia, vou compor uma música
para ser lida em dó de quem
se escreve.
O tema são seus olhos verdes,
que estão além
do mar,
que me lembra como era te amar.
Nadei rumo ao farol,
porque quem faz um poema salva um afogado.
Não vi a luz, não vi o sol,
não vi Virginia ao meu lado,
me apontando uma saída.
Como Dédalo, tive uma recaída,
porque algo em mim queimou.
O olho verde me viu,
mas a boca não sorriu,
o mar não voltou.
para ser lida em dó de quem
se escreve.
O tema são seus olhos verdes,
que estão além
do mar,
que me lembra como era te amar.
Nadei rumo ao farol,
porque quem faz um poema salva um afogado.
Não vi a luz, não vi o sol,
não vi Virginia ao meu lado,
me apontando uma saída.
Como Dédalo, tive uma recaída,
porque algo em mim queimou.
O olho verde me viu,
mas a boca não sorriu,
o mar não voltou.
domingo, 4 de outubro de 2015
Queria ser Proust
e ter o tempo redescoberto;
mas de mim só está perto
algo que não é a memória involuntária.
Uma vontade, canalha,
de que tudo dê certo.
O signo mais incerto
que a imagem do escritor.
Amor, que rima com dor,
e que dá a esse bolor
um cheiro de quase-nada.
Uma gota de chá derramada
mistura-se com a lágrima,
que mistura-se com o mar.
Ao longe, Swann no caminho,
um sorriso no rosto que me deixa sozinho,
procurando minha mãe.
Em fuga, corro em busca
do tempo perdido da fugitiva.
Não sou eu, eu sou ela.
Saída.
e ter o tempo redescoberto;
mas de mim só está perto
algo que não é a memória involuntária.
Uma vontade, canalha,
de que tudo dê certo.
O signo mais incerto
que a imagem do escritor.
Amor, que rima com dor,
e que dá a esse bolor
um cheiro de quase-nada.
Uma gota de chá derramada
mistura-se com a lágrima,
que mistura-se com o mar.
Ao longe, Swann no caminho,
um sorriso no rosto que me deixa sozinho,
procurando minha mãe.
Em fuga, corro em busca
do tempo perdido da fugitiva.
Não sou eu, eu sou ela.
Saída.
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